Últimas

3 de fevereiro de 2017

Ortorexia nervosa, os riscos da doença da comida saudável


Você é daqueles que segue a risca a dieta, só consome produtos saudáveis, orgânicos e chega a abrir mão de festas e eventos, mesmo que profissionais, por não conseguir comer alimentos dos quais não sabe a procedência ou porque não foram preparados por você? Cuidado: você pode ser um ortoréxico. Conheça os principais sintomas e como se tratar da "doença saudável".

Ela é pouco conhecida e ainda não se trata de um caso de saúde pública - apesar de alguns médicos já classificar e compará-la ao surto da comida macrobiótica ocorrido na década de 80 -, mas seus sintomas são constantemente confundidos com aos de outros distúrbios, como os do Transtorno Obessivo Compulsivo - TOC. 

O termo ortorexia nervosa ("orto" se refere a "correto") foi cunhado em 1997 pelo médico norte-americano Steven Bratman para se referir ao distúrbio desencadeado por uma preocupação obsessiva de comer de forma correta, saudável, levando à risca ditados como "você é o que come" ou "que seu remédio seja seu alimento", chegando ao ponto doentio de uma dieta restrita capaz de se contar os alimentos permitidos nos dedos de uma das mãos para não causar ou desencadear doenças, como asma e alergias.

Para se ter uma ideia, a forma e o que o ortoréxico come são mais importantes ao trabalho e a vida pessoal, tudo em nome da "purificação" e "manutenção" da saúde, mas não percebe que está adoecendo com esse comportamento.




A máscara dos hábitos saudáveis


Apesar de não fazerem parte do grupo de risco, que é mais comum em mulheres entre 18 e 25 anos, que se preocupam demais com a aparência, moram em conglomerados urbanos e pertencem às classes sociais mais abastadas; é comum em canais de dicas de musculação do YouTube, nas rodas de amigos e entre frequentadores das academias homens que partem para o radicalismo alimentar em prol de "crescer" e ter um corpo musculoso, no melhor estilo no pain, no gain ("sem dor, sem ganho" na tradução literal para o português). 

Contudo, o principal desafio em lidar com a ortorexia está justamente na máscara dos hábitos saudáveis que promete um estilo de vida cheio de vantagens em que a qualidade dos alimentos ingeridos não tem impacto só no corpo, mas também na identidade. O cara acaba se sentindo superior aos demais por seguir sua dieta à risca e obter os resultados desejados, mas se um dia não resistir àquela comida gordurosa acaba por se penalizar com um jejuns e dieta ainda mais restritiva com objetivo de se desintoxicar e não prejudicar a sua imagem "saudável".

O Instagram, segundo especialistas, é o melhor lugar para identificar a armadilha desse tal estilo de vida, em que os adeptos postam suas conquistas acompanhadas de frases motivadoras e de hashtags como #foco, #orgânico, #clean e #comidasaudavel arrebatando milhares de seguidores e idealizadores. Por parecerem disciplinados e saudáveis, acabam por não percebendo o problema que estão desencadeando.




Diagnóstico e tratamento


Não se pode diagnosticar como ortoréxica qualquer figura saudável que cruzar seu caminho ou sua timeline. É preciso deixar claro que uma pessoa não tem o distúrbio simplesmente porque segue uma dieta mais frugal ou que busca uma alimentação ou estilo de vida mais saudável. A obsessão é o problema.

De acordo com Joana Novaes, psicanalista e coordenadora do núcleo de doenças da beleza da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), em entrevista ao TAB, "o distúrbio só fica evidente quando o ortoréxico passa a evitar relacionamentos, lugares e eventos que não lhe garantem o controle sobre a procedência e o preparo da comida".

É isso que diferencia a preocupação em ser saudável (seria melhor comer tal coisa) de uma patologia (só como se for tal coisa). Por causa da obsessão – "eu mesmo vou à feira", "eu mesmo escolho o tomate orgânico", "eu mesmo o preparo", "o que exatamente tem nesse suco?" -, especialistas colocam a ortorexia sob o guarda-chuva do TOC e não de outros distúrbios alimentares, apesar de haver características em comum. Outro agravante nessa intensa perseguição da saúde pode vir da prática de exercícios físicos, que os ortoréxicos associam cada vez mais a seus cardápios restritos, criando assim o falso combo do bem-estar.

E como se tratar? Nesse caso, é preciso de uma equipe multidisciplinar, com médicos, nutricionistas e psicólogos, para que a origem da obsessão seja diagnosticada e então partir para reverter essa extrema preocupação. É preciso comer bem para viver, mas não fazer da comida o centro da sua vida. Há outros setores, como trabalhar, se relacionar e se divertir, que também precisam de atenção e não devem ser negligenciados por causa de uma dieta pseudo-saudável. 

Faça uma profunda auto-análise dos seus hábitos, se precisar peça a opinião sincera de sua companheira, familiares e amigos. Se chegar a conclusão de que está abrindo mão de coisas e momentos bacanas da sua vida devido à dieta ou ao biotipo que persegue, é legal procurar ajuda médica. Lembre-se: é no extremismo que o diabo mora. #ficadica



Com informações da Associação Brasileira de Nutrologia-ABRAN e TAB UOL
Imagens: reprodução



Nenhum comentário :

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...